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Ficções I Vera Holtz, uma ‘mulher sapiens’ no Teatro.

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A peça de teatro “Ficções”, em cena no Teatro Tivoli em Lisboa, até 3 de Março, com dramaturgia e encenação do carioca Rodrigo Portella, é um extraordinário monólogo da grande actriz brasileira Vera Holtz inspirado no famoso best-seller “Sapiens-Uma Breve História da Humanidade”, de Yuval Noah Harari. Mas calma, não é uma adaptação! Atenção continua com uma digressão, por várias cidade do País. Absolutamente a não perder!

Depois do best-seller existencialista “Sapiens-Uma Breve História da Humanidade”, do filósofo israelita Yuval Noah Harari (editado em Portugal pela Pinguim/Elsinore) e das suas mais diversas reflexões e crónicas, publicadas nos media internacionais, sobre a natureza humana, no passado e no presente (e também sobre a crise provocada pela pandemia de Covid-19), além da publicação de uma novela gráfica de David Vandermeulen e Daniel Casanave, chega-nos agora uma rara versão teatral, inspirada, no seu livro e intitulada “Ficções”. Desiludam-se todos aqueles que pensam que se trata de uma adaptação teatral do livro de Harari, com diálogos e cenas convencionais. O que aliás seria muito difícil de fazer! “Ficções”, de Rodrigo Portella, que também assina a dramaturgia, é uma peça de teatro incrivelmente interpretada pela grande e expressiva actriz brasileira Vera Holtz. O espectáculo, de quase 2h é na verdade uma longa conversa em interacção com o público, lançando-nos um desafio e propondo-nos uma série de reflexões sobre a evolução humana, o seu percurso ao longo de milénios e o futuro da Humanidade. A peça é na verdade uma magistral aula de filosofia, na qual a grandeza de Vera Holtz como atriz, se sobrepõe, dialogando com em quase 2 horas, com os espectadores e com a virtuosa música interpretado ao vivo nos ‘baixos’ de Federico Puppi.

Ficções
Vera Holtz desdobra-se em personagens, canta, improvisa, conversa com a plateia. ©Plano6/Divulgação

OUTRA FORMA DE FAZER TEATRO

Desafiado pelas questões trazidas pelo livro de Harari e pela inevitável analogia com as artes cénicas — que permitem criar novos mundos e novas narrativas — o encenador Rodrigo Portella criou um jogo teatral em que a todo momento o espectador é lembrado sobre a ficção ali encenada: ‘Um dos principais objetivos é explorar o sentido de ficção em diversas direções, conectando as realidades criadas pela humanidade com o próprio acontecimento teatral’, resumia o dramaturgo e encenador, na apresentação da peça por altura da estreia no Centro Cultural do Banco do Brasil, em setembro de 2022. Quando foi chamado para escrever e dirigir, Portella imaginou que iria pegar em excertos do livro para os transformar num espetáculo convencional: ‘Ao começar a ler, entendi que não era bem isso. Era preciso construir uma dramaturgia original a partir das premissas do Harari que seriam interessantes para a espetáculo. Em nenhum momento, no entanto, a gente quer dar conta do livro na peça. Na verdade, é um diálogo que a gente está estabelecendo com a obra’, confessa sobre o processo de construção do texto teatral. A estrutura narrativa foi outro ponto determinante no propósito do espetáculo: ‘Eu queria fazer uma peça que fosse espatifada, não é aquela montagem que é uma história, que pega na mão do espectador e o leva no caminho da fábula. Quis ir por um caminho onde o espectador é convidado, provocado a construir essa peça com a gente. É uma espécie de jam session. É uma performance em construção, Vera e Federico brincam com tudo, com os cenários, tem uma coisa meio in progress’, descreve para finalizar a ideia do espectáculo. Rodrigo Portella dirige igualmente o espetáculo com muita habilidade e sofisticação, criando belíssimas imagens graças minimalista grandioso da cenografia criada por Bia Junqueira, pelos sóbrios e elegantes figurinos de João Pimenta, pela iluminação de Paulo Medeiros, que dialogam, o tempo todo com a dramaturgia, criando uma atmosfera estranha mas, fundamental para que tudo ganhe força e concentre a nossa atenção.

VÊ EXCERTO DE ‘FICÇÕES’

SOMOS TODOS ‘HOMO-FICÇÕES’

No palco, movimenta-se a ‘enorme’ Vera Holtz, uma das melhores e mais inspiradoras atrizes brasileiras da actualidade, — é magnifica também no cinema e vi-a recentemente no filme Tia Virgínia (2023), de Fábio Meira, por enquanto sem data de estreia em Portugal —, que veste a pele de uma ‘mulher-sapiens’, uma humana, que apesar de tudo continua a ter fé na Humanidade. Os espectadores são convidados a entrar nesse ambiente muito particular em que pouco mais existe de que uma grande pedra, ou um meteoro que colidiu com a Terra. Vera é uma mulher com semblante messiânico que veste roupas que imaginamos, vestiriam as figuras bíblicas da Antiguidade. Ela é uma espécie de profeta Moisés, que carrega consigo um cajado e leva-nos a fazer uma divertida viagem pela evolução da nossa espécie. Porém, mais que uma peça de teatro clássico, “Ficções” aproxima-se também do lirismo de um musical, com uma perfeita sintonia entre Vera e Federico, que em vários momentos e bastante hilariantes, cantam e tocam juntos. A dramaturgia, absorve naturalmente, alguns dos conceitos de “Sapiens”  como o princípio da colaboração, a partir de comandos ou ordens abstractas — que aliás são genialmente bem explorados e em perfeita interacção com o público: Vera começa logo no inicio por estabelecer um jogo com a plateia para que bata palmas sempre que ela exibir os peitos. O resultado é obviamente uma forte correspondência e uma enorme diversão, ao longo de todo o espectáculo. A premissa central do best-seller de Yuval Noah Harari é também explorada sobretudo, a partir da ideia da presença da linguagem como algo específico do homo sapiensO que nos distingue das outras espécies é a de nossa capacidade de criar coisas que não existem: ficções.

Ficções
Vera é uma mulher com semblante messiânico, que se veste como uma figura bíblica: Maomé ©Plano 6/Divulgação

OS DOIS HARARI DA PEÇA

Se afinal, nada existe e tudo não passa de ficções, as religiões, governos, nações, se tudo foi imaginado, como nos aguentamos a viver esta existência? É esta reflexão que atravessa todo o monólogo, enriquecido pelo humor e pela interpretação fora de série de Vera Holtz (e também diga-se do músico Federico Puppi). Vera vai recebendo ligações telefónicas do seu suposto marido, um professor e historiador que também por mera coincidência se chama Harari (brincando, claro) e que naquele momento da peça, decide ligar à mulher porque está atormentado por questões existenciais. O casal telefonicamente, questiona, por exemplo o que será ter um filho num planeta completamente atulhado com 6 bilhões de pessoas? Assim, também parece haver pelo menos dois Yuval Noah Harari na peça “Ficções”: o autor do best-seller internacional que serve de ponto de partida para o texto; o outro Harari, ficcional, o marido de Vera, a protagonista que, por sua vez, nem sempre se confunde exatamente com a atriz Vera Holtz. Outro dos temas da peça tem a ver com discussão de género: como é ser mulher e pro-criadora, num mundo em que a sua própria espécie tenta auto-destruir-se? Embora não seja tema central do espetáculo, a questão de género, atravessa-o principalmente quando a protagonista questiona, a visão patriarcal da história do planeta e, portanto, da humanidade, na qual parece aprisionada como mulher. Garanto-vos que o final é arrepiante! Não à toa, que quase no desfecho final de “Ficções”, a personagem anuncia ao seu marido Harari e talvez indirectamente também ao autor de “Sapiens”, — que em certos aspectos não deixa de ser contraditório — que está de partida para uma viagem sozinha, em busca de uma nova narrativa só sua, não planeada, e que não esteja sujeita a nenhum dos Harari. Vera quer perder-se, mergulhar em si mesma, para, quem sabe, contar um dia uma outra história e um outro ponto de vista, uma outra visão da História da Humanidade, feita pelas mulheres.

Ficções
Vera quer mergulhar em si mesma, para, quem sabe, contar um dia uma outra história. ©Plano 6/Divulgação.

OS GRANDES TEMAS DA EXISTÊNCIA

As questões e os temas tratados em “Ficções” na sua essência, são demasiado reflexivos, incómodos e angustiantes, mas no texto de Rodrigo Portella encontraram uma forma magnífica de serem levados ao público, com mais leveza e humor. A plateia, inclusive, é parte importante do espetáculo, quer a partir das interações presenciais, quer a partir de imaginárias e divertidas interpretações de Vera Holtz dos vários tipos característicos de potenciais espectadores: por exemplo o espectador religioso e beato, que evita ir ao teatro para não ter que pensar. Há de facto uma tensão entre a reverência à fonte do texto encenado e a vontade da actriz de se descolar e libertar-se, à custa de extraordinárias improvisações. O espetáculo, como já disse não é de forma nenhuma uma adaptação livre, pelo contrário pretende liberta-se dele e desse olhar patriarcal, que o originou e o tornou num dos livros mais vendidos de sempre. Esta irreverência feminina está não apenas, quando Vera conduz as suas falas, como nos múltiplos personagens que encarna, que no fundo são ela mesma, uma mulher em busca de um discurso e uma história, que seja, de fato, sua, ainda que efémera, como tudo e todos os seres vivos no mundo. “Ficções” é o Teatro em completo estado de graça, provando que a arte do encontro real e da comunhão dos espectadores com os artistas ou seja a possibilidade de assistirmos juntos e ao vivo a uma boa peça, jamais poderá ser substituída por qualquer algoritmo ou inteligência artificial.

LISBOA – DE 9 DE FEVEREIRO A 3 DE MARÇO; (TEATRO TIVOLI); PORTO – DE 7 A 17 DE MARÇO DE 2024 (TEATRO SÁ DA BANDEIRA); PÓVOA DE VARZIM – 19 E 20 MARÇO (CINE TEATRO GARRET); FIGUEIRA DA FOZ – 22 E 23 MARÇO (CAE); VILA REAL – 27 E 28 MARÇO (TEATRO MUNICIPAL DE VILA REAL); LEIRIA – 02 E 03 ABRIL (TEATRO JOSÉ DA SILVA); FAMALICÃO – 05, 06 E 07 ABRIL (CASA DAS ARTES).

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“Sapiens-Uma Breve História da Humanidade”, de Yuval Noah Harari. ©Elsinore/Divulgação

O LIVRO É UM CLÁSSICO CONTEMPORÂNEO

“Sapiens-Uma Breve História da Humanidade” consagrou Yuval Noah Harari, como um dos pensadores mais brilhantes da actualidade. Um feito surpreendente, que já fez deste livro um clássico contemporâneo, onde o historiador israelita aplica uma fascinante narrativa histórica a todas as instâncias do percurso humano sobre a Terra. Da Idade da Pedra ao Vale do Silício, mostrando-nos uma visão ampla e crítica da jornada em que deixamos de ser meros símios para nos tornarmos os governantes do mundo. Em “Sapiens-Uma Breve História da Humanidade”Yuval Noah Harari reflete ainda sobre a pretensa evolução da nossa espécie ao longo de 300 mil anos. O historiador, professor e filósofo israelita elabora uma análise crítica, sobre como chegamos até aqui e alerta-nos em relação aos riscos do futuro. O planeta Terra tem cerca de 4,5 bilhões de anos. Numa fração ínfima desse tempo, uma espécie entre incontáveis outras dominou-o: nós, os Humanos. Somos os animais mais evoluídos, porém os mais destrutivos que jamais viveram no Planeta. Publicado em 2014, o livro de Harari afirma ainda que o grande diferencial do homem em relação às outras espécies é sua capacidade de inventar, de criar ficções, de imaginar coisas coletivamente e, com isso, tornar possível a cooperação de milhões de pessoas — o que envolve praticamente tudo ao nosso redor: o conceito de nação, leis, religiões, sistemas políticos, empresas etc. Mas também o fato de que, apesar de sermos mais poderosos que nossos ancestrais, não somos mais felizes que eles. Partindo dessa premissa, o livro indaga: estamos usando nossa característica mais singular para construir ficções, que nos proporcionem, coletivamente, uma vida melhor?  

JVM

‘Ficções’ | A História da Humanidade segundo Vera Holtz

Ficções

Event Title: Ficções

Event Description: Vera Holtz desdobra-se em personagens, canta, improvisa, conversa com a plateia, brinca e instiga-a a pensar. A peça Ficções, inspirada no best-seller Sapiens, de Yuval Harari, é um espectáculo único e poderoso, encenado por Rodrigo Portella, que nos leva a viajar pela história da Humanidade. Um desafio que nos propõe reflexões sobre a evolução humana e o caminho que ela leva.

CONCLUSÃO:

Vera Holtz desdobra-se em personagens, canta, improvisa, conversa com a plateia e com o seu companheiro de palco, brinca e instiga os espectadores a pensar na nossa condição humana. O monólogo foi escrito para a actriz, pelo próprio Rodrigo Portella por isso por vezes funde-se de uma maneira bastante inusitada e criativa, numa personagem chamada ‘Vera’, enquanto perfil ou vários perfis muito peculiares, com a própria actriz, uma carismática mulher alta de cabelos brancos, que nos questiona a todo o momento durante o espectáculo: Tudo o que conhecemos e entendemos como realidade mais não é do que uma ficção? Vivemos imersos em narrativas que nos foram repassadas, a partir das quais lemos o mundo e que convencionamos chamar de real. “Ficções” é um espetáculo que fala sobretudo dessa nossa capacidade de criar ficções e de acreditar nelas: deuses, dinheiro, nações…Porém, com tantas invenções, a espécie que comanda o planeta continua insegura e sem saber ainda muito bem qual o caminho certo a seguir.

JVM

Pros

Vera Holtz é grande, mas os dois artistas, incluindo Federico Puppi, estão em perfeita sintonia, cantando e tocando juntos, conseguindo em vários momentos ser bastante hilariantes.

Cons

Na verdade, o pior mesmo é perder este espectáculo inesquecível e neste aspecto como espectadores não hesitem no caminho a seguir: vão vê-lo!

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